Transtorno de pânico e medo de doença cardíaca

O medo dos sintomas gerados por estados de ansiedade, assim como de prejuízos físicos, psíquicos ou sociais atribuídos a estados de ansiedade é denominado de sensibilidade à ansiedade. Altos níveis de sensibilidade à ansiedade levam a pessoa ansiosa a reagir de modo desproporcional diante de sinais  normais do sistema nervoso, quando este é estimulado de algum modo. Assim, sintomas como respiração pesada ou coração acelerado, entre outros,  causam ansiedade e podem mesmo provocar ataques de pânico em pessoas predispostas ou que já sofrem de transtorno de pânico.

A sensibilidade à ansiedade é considerada atualmente um fator de risco para o advento do transtorno de pânico e de outros transtornos de ansiedade.  A sensibilidade à ansiedade é composta de diferentes dimensões e diferentes níveis de gravidade, o que contribui para diferentes apresentações do transtorno de pânico. São descritas na literatura especializada seis dimensões de medo:

  1. Dos sintomas do tipo cardiovascular
  2. Dos sintomas do tipo respiratório
  3. Dos sintomas com características gastrintestinais
  4. De que reações de ansiedade possam ser observadas por outras pessoas, em público
  5. De sintomas do tipo neurológico (vertigem e outros sintomas)
  6. De descontrole do pensamento

A  ansiedade ligada ao medo de doença cardíaca coronariana ou infarto do miocárdio é chamada de ansiedade cardíacaA ansiedade cardíaca leva frequentemente a pessoa ansiosa a evitar atividades físicas ou outras situações de vida que possam desencadear sinais físicos de natureza cardiovascular. Além da evitação de atividade física, a pessoa também pode passar a se tornar vigilante do corpo devido ao medo  de evento cardíaco agudo.

Estudos demonstram que existe de fato uma relação entre transtorno de pânico e doença cardíaca que não deve ser ignorada. Pessoas com transtorno de pânico com apresentação de sintomas de maior gravidade podem vir a desenvolver doenças cardíacas como arritmias  e doença arterial coronariana. A causa, ainda em investigação pela ciência, pode possivelmente ser atribuída à intensidade da ativação cardiovascular nas crises de pânico, assim com à frequência desta ativação. Essa ativação do sistema cardiovascular recebe o nome de carga alostática e está estreitamente ligada ao nível de estresse a que cada um de nós está sujeito no dia a dia. Obviamente que pessoas com mais idade, principalmente a partir da meia idade, e pessoas com outros fatores de risco para doença cardíaca estarão mais sujeitas a eventos cardíacos como arritmias, doença coronariana e infarto agudo do miocárdio.

Outro fato digno de nota é que entre pessoas com doença cardíaca ou histórico de infarto do miocárdico o transtorno de pânico é frequente. A preocupação com um possível novo evento cardíaco, talvez fatal, gera medo, principalmente em pessoas previamente ansiosas, o que pode acabar gerando ativação persistente do sistema nervoso simpático, responsável pela ativação cardiovascular. Essa ativação persistente pode resultar em crises de ansiedade e mesmo pânico.

Vale lembrar que todos os transtornos de ansiedade podem contribuir para o desenvolvimento da doença cardíaca à longo prazo. Transtornos de ansiedade como Fobia  social ou transtorno de ansiedade social (TAS), transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno obsessivo -compulsivo (TOC) ou estresse traumático (TEPT) geram estados contínuos ou frequentes de ativação do sistema nervoso simpático e redução da reatividade do sistema nervoso parassimpático, este último responsável pela redução da frequência cardíaca e pela redução da ansiedade.

Existem também quadros de ansiedade pouco conhecidos da população, como por exemplo o transtorno de ansiedade de doença, conhecido também como hipocondria, que causa grave ansiedade por medo de adoecimento, assim como certas fobias específicas como fobia de doença (nosofobia) e fobia de morte (tanatofobia) que geram grande ansiedade, cursam eventualmente com crises de pânico e podem predispor a pessoa a evento cardíaco no longo prazo.

Portanto, fatores de risco para doença cardíaca devem ser avaliados em todos os pacientes com transtornos de ansiedade e pânico. Os fatores de risco para doença cardíaca envolvem diabetes, hipertensão arterial, alterações do colesterol, alimentação ruim, aterosclerose, sedentarismo e estresse elevado ou persistente, entre outros. O risco de acidente vascular cerebral (AVC) também está diretamente ligado aos fatores de risco para doença cardíaca.

Acho extremamente importante reforçar que crises de pânico, que frequentemente são acompanhadas de taquicardia intensa, não são sinônimo de risco iminente de infarto agudo do miocárdio (IAM), mas são frequentemente confundidos com IAM pelas pessoas sofrendo tais crises e seus familiares, razão pela qual a pessoa com transtorno de pânico não diagnosticado costuma procurar  ajuda nos serviços de pronto-atendimento médico e cardiológico.

Finalmente, oriento a toda pessoa que visita um pronto-atendimento em crise de ansiedade e pânico e que, após avaliado e medicado, recebe a informação de que se trata "apenas de ansiedade", não se conforme com isso e procure avaliação especializada. O transtorno de pânico é um transtorno de ansiedade perfeitamente tratável desde que o tratamento seja acompanhado por médico psiquiatra especializado.

Os transtornos mentais, entre eles os cada vez mais comuns transtornos de ansiedade, ainda são pouco compreendidos pelas pessoas, tanto no sofrimento que causam quanto nos riscos que envolvem e, infelizmente, esse desconhecimento pode existir  mesmo entre profissionais de saúde.

Texto de autoria do Dr. Lincoln C. Andrade*

Permitida a reprodução e divulgação desde que citada a fonte (autor e site)

*Dr. Lincoln Cesar Andrade é médico psiquiatra especializado no tratamento de pacientes em crise emocional, estresse, transtornos de ansiedade, medo e pânico. Mantém em sua clínica o programa CALMA, especializado no tratamento do transtorno de pânico. Agendamento de consultas pelos fones (41) 30391890 e 996437333.

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