Prevenção do adoecimento mental no trabalho: uma atividade esquecida pela saúde

Escrevi este artigo após tomar conhecimento pela imprensa a respeito de um policial que possivelmente apresentou um "surto" psicótico no prédio onde mora em Curitiba - PR, no dia 27 de novembro de 2018.

As primeiras notícias informavam que o policial já vinha trabalhando sem arma de fogo por estar apresentando perturbação comportamental, e naquela manhã acordou moradores do edifício com o barulho do extintor de incêndio, que disparava nos corredores acreditando estar em um incêndio. A polícia foi chamada, invadiu o apartamento e o policial foi encaminhado para atenção médica. A mesma fonte informava que nos últimos 12 meses cinco policiais da mesma região haviam se suicidado.

Ao ouvir tais notícias pelo rádio lembrei dos meus 20 anos de trabalho com estresse e ansiedade, e assim como dos 10 anos em psiquiatria ocupacional. Lembrei-me também de tantos pacientes que já atendi com queixas de sofrimento mental no trabalho. Por se tratar de um fato ocorrido com um policial, profissional sujeito a alta carga de estresse diário, a notícia acima citada me fez pensar nas várias áreas profissionais com alto risco para o desenvolvimento de doenças mentais ocupacionais, e do pouco que a maioria das empresas faz para prevenir a ocorrência de tais doenças. Portanto achei importante relacionar neste artigo alguns ramos de atividade que deveriam ter como prioridade um trabalho preventivo na área de saúde mental.

Em primeiro lugar abordo o trabalho do bancário, cuja responsabilidade em lidar com o dinheiro alheio, pelo número excessivo de tarefas e ritmo rápido da atividade está constantemente sujeito a alta carga de estresse. Não raramente atendo bancários sofrendo de esgotamento mental. Muitos são afastados do trabalho por longo tempo e quando retornam ao trabalho encontram seu posto preenchido, se sentem desnorteados. Muitos  pacientes relatam que são transferidos para locais de trabalho distantes ou ocupações fora de sua competência.

Professores são outra classe profissional sujeita ao estresse excessivo. Enfrentam salas de aula com muitos alunos, indisciplina, violência, falta de estrutura adequada para o exercício da função e baixos salários. Algumas estatísticas demonstram que até 30% dos professores de escolas públicas são afastados do trabalho por patologias mentais como depressão, ansiedade e síndrome de burnout. Apesar desse índice alarmante, desconheço qualquer trabalho preventivo em redes públicas de ensino. Algumas redes particulares têm programas preventivos para alunos, raramente para professores.

Policiais, assim como vigilantes de carro forte, em trabalho de segurança e em uso de armas de fogo são especialmente suscetíveis ao estresse, pois precisam estar em contínuo estado de alerta, prontos para ação a qualquer momento, ação esta que envolve risco de matar ou morrer. Além do mais, são mal remunerados. Vigilantes em carro forte estão sujeitos a temperatura elevada no interior do veículo, o que torna o trabalho mais exaustivo. Muitos profissionais da área de segurança trabalham no limite do estresse emocional e físico. Em minha prática profissional não tenho visto programas de prevenção de estresse específicos para esses profissionais.

Não poderia deixar de fora deste artigo os trabalhadores de call center. Atendendo ligações durante horas seguidas, com pequenos intervalos de descanso e precisando atingir metas elevadas, muitos sofrem ofensas seguidas das pessoas para quem precisam ligar ou das pessoas que ligam para fazer reclamações. Essas pessoas sofrem todo tipo de consequência física e psicológica de altos níveis de estresse diário. Não é incomum o relato de tentativas de suicídio nesta população.

Eu poderia citar aqui muitas outras categorias profissionais, que variam de motoristas de ônibus urbano a pilotos de aeronave, mas meu objetivo com este artigo é chamar atenção para o problema da falta de prevenção em saúde mental nos ambientes ocupacionais.

Muitas empresas oferecem planos de saúde, o que sem dúvida é importante, e parecem achar que é o suficiente, mas não é. Planos de prevenção em saúde mental ocupacional são baratos  e eficientes, reduzem custos com saúde para as empresas e para operadoras de planos de  saúde, assim como preservam a saúde dos funcionários. Mas para que isso ocorra os gestores das empresas precisam se interessar de modo mais amplo pela saúde mental dos seus funcionários. Precisam perceber que se trata de investimento e não de gasto. E o setor público não é exceção de modo algum.

Desconheço os detalhes da condição de saúde mental do policial cujas notícias abriram este artigo, mas é impossível não pensar se o surto que ele sofreu não poderia ter sido evitado se o mesmo tivesse acesso fácil a um serviço de prevenção do estresse ocupacional e de saúde mental ocupacional.

Texto de autoria do Dr. Lincoln Cesar Andrade

Permitida  a reprodução e divulgação desde que citada a fonte (autor e site)

Dr. Lincoln C. Andrade é médico psiquiatra, com residência médica pelo HC/USP, especializado no atendimento de pessoas em crise emocional, estresse, ansiedade e pânico. Tem vinte anos de experiência no atendimento de pessoas em crise emocional de qualquer origem e dez anos de experiência em saúde mental ocupacional. Criou e mantém em sua clínica o programa CALMA, especializado no tratamento de ansiedade e pânico. Agendamento de consultas pelos fones (41) 30391890 e 996437333.

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