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Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) com obsessões de violência e conteúdo sexual

O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) caracteriza-se de modo sucinto por pensamentos e imagens mentais desconfortáveis, repetitivas e persistentes (obsessões) e comportamentos ritualísticos compulsivos (compulsões), que ocorrem espontaneamente e são de controle difícil ou impossível sem tratamento adequado. Trata-se de um quadro psiquiátrico bastante complexo, cujos detalhes são pouco conhecidos pela população geral.

Dentre os subtipos de TOC, descrevo hoje o TOC com obsessões de violência e conteúdo sexual, talvez a mais desconcertantes das apresentações clínicas desta psicopatologia.

As obsessões de violência e de conteúdo sexual atendem à duas características básicas:

1) Pensamentos recorrentes sobre a possibilidade de matar ou machucar pessoas de modo intencional

2) Pensamentos recorrentes sobre a possibilidade de adoção de um comportamento sexual inadequado com pessoas diversas, conhecidas ou desconhecidas

Não se trata de um impulso ou desejo de realizar tais atos, mas de pensamentos  e imagens mentais que surgem espontaneamente, são irracionais, angustiantes e de difícil controle, muitas vezes impossíveis de controlar. Pessoas com essa grave apresentação do TOC têm dúvidas angustiantes sobre a possibilidade de estarem enlouquecendo, serem criminosos em potencial ou pervertidos sexuais.

Percebendo a dificuldade enorme ou a impossibilidade de se livrar dos sintomas, ficam com sua autoimagem prejudicada, pois se avaliam como pessoas de má índole. De modo paradoxal e desconcertante, sabem que não têm intenção de causar mal a ninguém, mas não conseguem se convencer de que isso não possa vir a acontecer em algum momento. Quanto mais grave o TOC, mais ficam presos aos pensamentos obsessivos.

Muitos são os conteúdos dos pensamentos e imagens mentais recorrentes de quem sofre de TOC com obsessão de violência, incluindo os abaixo listados:

• Pensamentos repetitivos a respeito de agredir, bater, mutilar, machucar ou esfaquear pessoas conhecidas, desconhecidas, inclusive crianças, e mesmo animais de estimação

• Medo de usar objetos pontiagudos, muito afiados, como tesouras, garfos, facas, espetos, pois tem a sensação de que podem, repentinamente, se ferir ou ferir outras pessoas

• Sensação de que podem, de repente, se lançar ou empurrar  outras pessoas diante do trem do metrô,  ou diante de carros passando, ou mesmo de lançar um bebê pela janela ou sacada do apartamento

• Sensação de que podem lançar seus carros sobre pessoas inocentes em calçadas ou pontos de ônibus

O medo de ficar na companhia de crianças, idosos avançados ou deficientes físicos, e vir a perder o controle dos impulsos, muitas vezes faz com que evitem ficar sozinhas com elas. Essa angústia e o comportamento de evitação ocorre também quando diante de filhos pequenos.

As obsessões sexuais podem também envolver muitos conteúdos angustiantes, como, por exemplo, o medo de vir a cometer estupro de vulneráveis, abusar sexualmente de seus filhos pequenos ou outras crianças. Os pensamentos ou imagens mentais também envolvem a possibilidade de  comportamentos sexuais inadequados diante de estranhos e em locais públicos. O TOC de pedofilia, que foi foco de artigo que escrevi anteriormente, é a mais angustiante manifestação clínica do TOC de conteúdo sexual.

Pessoas com esse tipo de TOC sofrem imensamente, têm baixa qualidade de vida, têm ansiedade elevada e depressão, e muitos apresentam ideação ou fazem tentativas de suicídio. Sabem que não querem nem são capazes de fazer mal aos demais, mas não conseguem nunca ter certeza de que isso não venha a ocorrer. Por isso sofrem continuamente.

Essas pessoas sentem tal temor de que seus conhecidos, amigos e familiares saibam algo a respeito de seus pensamentos e imagens mentais que costumam sofrer em silêncio. Muitos não buscam ajuda por medo de serem julgados por médicos e profissionais de saúde mental como sociopatas, monstros, pedófilos ou loucos.

O tratamento do TOC costuma reduzir bastante os sintomas e melhorar muito a qualidade de vida da pessoa acometida, e é realizado com medicamentos e psicoterapia de base cognitiva (TCC). Infelizmente, como acima descrito, muitas pessoas sofrem em silêncio devido ao medo do estigma de doentes mentais, e não buscam ajuda. Assim permanecem fugindo de seus pensamentos e medos, mas o tratamento eficaz envolve o enfrentamento dos medos, sempre que possível com suporte de um profissional de saúde mental experiente.

Como costumo comentar nos artigos que escrevo, quando diante de uma pessoa que sofre de algum transtorno mental não julgue, ajude! Dê apoio e oriente a procura de tratamento. Faça parte da solução e não do problema. Vivemos em uma época e em um mundo difícil. Precisamos de ajuda, não de preconceito.

Artigo de autoria do Dr. Lincoln c. Andrade. Permitida e reprodução e divulgação desde que citada a fonte (autor e site, www.lincolnandrade.com.br).

*Dr. Lincoln C. Andrade é médico psiquiatra com residência médica  pelo hospital das clínicas da USP (HC/RP-USP), especializado no atendimento de pacientes em crises emocionais, estresse elevado, medo e pânico. Tem vinte anos de experiência na área. É também especialista em sexualidade humana pelo projeto sexualidade do hospital das clínicas da faculdade de medicina da USP (HC/USP). Criou e mantém em sua clínica o programa CALMA, para tratamento do transtorno de pânico, e o o Centro de  relaxamento profundo, de medicina mente e corpo. Dr. Lincoln também mantém um canal no youtube, a Escola de saúde mental, para o ensino gratuito sobre saúde mental e qualidade de vida.

Atendimento presencial, domiciliar e por telemedicina (para todo Brasil). Agendamento de consultas pelos fones (41) 30391890 e 996437333.

"Clínica Dr. Lincoln Andrade, a clínica de referência no tratamento do estresse elevado,  ansiedade, pânico e crises nervosas em Curitiba".

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